O Presidente da República, João Lourenço, afirmou sábado, em Luanda, que a visita do Papa Leão XIV, a terceira que um Sumo Pontífice realiza ao país, é o reflexo das relações construtivas que Angola e a Santa Sé mantêm há décadas.Ao discursar no acto de recepção ao Chefe de Estado do Vaticano, no Salão Protocolar da Presidência da República, na presença de bispos, cardeais, membros do Executivo e do Corpo Diplomático, o estadista angolano acrescentou, ainda, que a presença de Leão XIV sinaliza mais um passo no reforço do diálogo e das bases sobre as quais assenta o grande papel social da Igreja Católica.
As relações diplomáticas entre Angola e a Santa Sé, lembrou João Lourenço, foram formalizadas num contexto político nacional diferente daquele que levou a assinatura, em 13 de Setembro de 2019, do Acordo-Quadro que estabeleceu os parâmetros jurídicos das relações entre o país e a Sé Apostólica.
“Mesmo nas circunstâncias mais difíceis do passado, o diálogo entre as autoridades angolanas e as instituições religiosas católicas manteve-se sempre voltado para a construção de entendimentos que passaram, também, pelo intercâmbio de delegações ao mais alto nível, materializado pelas visitas de Chefes de Estado angolanos ao Vaticano, em pelo menos três ocasiões”, revelou o Chefe de Estado, que esteve acompanhado da Primeira-Dama da República, Ana Dias Lourenço.
A busca constante de diálogo e de interacção entre o Estado e a Igreja Católica, sublinhou o Presidente João Lourenço, ajudou o Governo angolano na formulação de políticas sociais, com a realização de investimentos nos sectores da Saúde, da Educação e Ensino, da oferta de água potável e energia eléctrica, habitação, na criação de emprego e no combate à pobreza.
O Presidente João Lourenço sustentou ser, essa, uma missão em que “estamos profundamente empenhados”, mas também “com a noção plena de que se trata de um desafio complexo e difícil, que requer tempo e recursos que não são tão abundantes quanto desejaríamos, para melhorarmos os índices de qualidade de vida dos angolanos”.
O estadista angolano disse, também, que gostaria de poder contar “com o envolvimento mais construtivo da Igreja Católica na condição de parceira social do Estado”, para o propósito de alcançar o progresso e o desenvolvimento económico e social de Angola.
A ideia central da atenção aos pobres, acrescentou o Presidente da República, plasmada na Exortação Apostólica “Dilexi Te”, do Papa Leão XIV, “tem uma ressonância muito especial entre os governantes, porque serve de guia na acção quotidiana de luta contra as desigualdades, a indiferença e a exclusão social”, referiu, citando: “Deus tem um lugar especial no seu coração para aqueles que são discriminados e oprimidos e apela a escolhas radicais para ajudar os mais fracos”.
O Chefe de Estado ressaltou, ainda, estar seguro de que o Papa Leão XIV terá a oportunidade de observar mais de perto a profundidade da fé dos angolanos e de “apreender de forma mais objectiva as iniciativas que o Estado angolano empreende” para dignificar locais de culto e peregrinação, tendo realçado o Santuário da Muxima e a nova Basílica de Nossa Senhora da Muxima em fase de construção, “onde os cristãos católicos poderão expressar em melhores condições a sua devoção a Deus”.
Liberdade religiosa
João Lourenço explicou, também, que Angola é um Estado laico, onde cada cidadão pode expressar livremente a sua fé, optando pela confissão religiosa com a qual mais se identifica, sem nenhuma restrição à sua liberdade de escolha”, acrescentando que o “catolicismo tem uma grande expressão, que se reflecte no grande número de crentes e na grande expansão pelo território nacional”.
O Presidente da República sustentou que em Angola existe uma grande diversidade de religiões que convivem entre si pacificamente e trazem à evidência o carácter profundamente tolerante dos angolanos, “tendo-se consolidado já a prática de todos os anos, em algumas datas históricas, se realizarem cultos ecuménicos que são rotativamente dirigidos por líderes de diferentes confissões religiosas”.
A trajectória e a experiência de Angola ao longo das últimas décadas, salientou o estadista angolano, constituem uma boa ilustração do facto de o país ser uma nação que consagra a resolução das crises pelo diálogo.
“Trata-se de um forte marco identitário da nossa diplomacia, que tem moldado de maneira significativa a nossa política externa e que nos tem levado a desenvolver iniciativas diversas em prol da paz no nosso continente”, enfatizou.
Crítica ao “assalto”às matérias-primas
O estadista angolano deplorou o facto de, lamentavelmente, se continuar a assistir, cada vez mais, a uma corrida desenfreada às matérias-primas, aos recursos energéticos, aos recursos minerais, e outros tomados pela força das armas dos exércitos mais poderosos do mundo contra países soberanos.
O Presidente João Lourenço realçou, ainda, que se vive um momento perigoso com os conflitos que se proliferam por todos os continentes, salientando que o Médio Oriente, berço do Cristianismo, do Islão e do Judaísmo e de grandes civilizações, de quem a humanidade tem muito que agradecer, “devia ser uma zona de paz, de concórdia e de fraternidade”.
O Chefe de Estado propôs, por isso, ao fim definitivo da guerra, à abertura do Estreito de Ormuz pela via negocial e ao estabelecimento de uma paz duradoura na região, apelando ao Papa Leão XIV para que “do alto da sua autoridade moral” continue a desempenhar um papel de construtor de pontes, de apaziguamento de espíritos, de resgate dos valores humanistas, de busca da concórdia e do entendimento entre os homens.